5ª Sessão C.F.M. – D.T.W. : Cláudio Reis e Carlos Lobo

Decorreu no auditório da biblioteca da FAUP, nesta última quinta-feira 18 de Abril, mais uma sessão do nosso ciclo de conferencias D.T.W. (1) integrado na unidade curricular de Comunicação Fotografia e Multimédia (C.F.M.) do 4º e 5º Ano na FAUP.

Nesta 5ª sessão tivemos como autores convidados Cláudio Reis (2) e Carlos Lobo (3) que colaborou na moderação da mesa através de um diálogo exploratório e crítico tendo como base o trabalho apresentado.

A intervenção de Cláudio teve como mote “Fotografia como segundo olhar, do indicio ao conceito”, através do qual apresentou o seu projecto fotográfico em desenvolvimento “Côa” e foi a partir dele que se iniciou posteriormente a interessante discussão sobre a possibilidade de utilizar a fotografia como um meio para descodificar o processo criativo em arquitectura.

A série fotográfica constitui um projecto documental e artístico que procura comunicar, por um lado, a experiência única daquele lugar situado no território de Foz Côa, seleccionando na sua paisagem os indícios – artefactos e elementos naturais – responsáveis por desencadear as ideias e impressões mais significativas dessa experiência. Por outro lado, apesar de ser um projecto fotográfico com autonomia própria, ele está fortemente relacionado com o pensar da disciplina e prática de arquitectura: com o processo de concepção e construção do projecto do Museu do Côa de Camilo Rebelo e Tiago Pimentel e, também, com o interesse de Cláudio sobre as questões conceptuais ligadas ao processo de materialização de uma ideia arquitectónica e da sua comunicação através da imagem.

O trabalho de Cláudio permitiu, assim, levantar questões significativas ligadas ao processo de construção de um projecto fotográfico, e da sua relação com o lugar e com o próprio processo de concepção em arquitectura.

Cláudio Reis: 20 Untitled photographs from series “Côa”, 2013.

Cláudio Reis: 20 Untitled photographs from series “Côa”, 2013.

Como ele próprio diz na sinopse “ Entre ficção e documento, tudo começa na experiência única de estar no lugar, auscultando o território. Cada movimento procura na paisagem artefactos e evidências, indícios susceptíveis de lançar conceitos, as coisas que dão substância a esquissos e maquetas.” Começamos assim por falar na experiência do lugar e de como isso é comunicado nesta série fotográfica e da sua importância na arquitectura.

Interessa referir que esta particularidade no trabalho de Cláudio – integrar na poética e lógica conceptual do seu projecto fotográfico questões importantes da sua relação com o lugar (como arquitecto e como fotografo) e ao fazê-lo, estar simultaneamente a reflectir sobre o próprio processo de concepção da sua série e do Museu do Côa constitui um grande desafio e dá à sua série um nível de riqueza e complexidade fascinantes.

Ancorada numa forte matriz conceptual (método) e portadora de uma poética bastante singular, esta série permite (re)pensar o potencial da fotografia a dois níveis.

Por um lado, como um instrumento de desígnio para o universo da arquitectura, no sentido em que (re)interpreta aquela paisagem tocando em questões importantes que informaram a postura da arquitectura do Museu do Côa. É disso exemplo, entre outros que poderiam ser apontados, a importância da ruína como uma referencia da paisagem, a imagem do território como um legado e um espaço de contemplação, a barragem como cicatriz na paisagem, mas também como ideia de instalação, próxima da land art, uma ideia que surge também com a imagem da parede de betão que segura o xisto. Como nos disse Cláudio, a fotografia não só é um segundo olhar, uma mediação, como também uma “vontade” de projecto (este segundo olhar), um processo criativo de chegar a um conceito.

Por outro lado, como disciplina e meio, com autonomia própria, capaz de questionar, redescobrir e recriar o território de acordo com uma lógica conceptual que é a do autor e seu projecto fotográfico e não a do projecto de arquitectura. Neste sentido, podemos ver no trabalho de Cláudio um projecto artístico que “desplatoniza”, como diria Sontag (1996) (4), a nossa compreensão do lugar daquele território porque o transforma em imagem e processo, oferecendo dessa forma uma nova leitura e percepção acerca do mesmo.

Repare-se que esta série, que é apenas uma fase do projecto fotográfico “Côa”, possui já uma componente conceptual muito forte e uma lógica interna própria que, por diversas vezes, vai para alem das preocupações arquitectónicas ou do olhar de arquitecto. Na verdade, nesta série o Museu do Côa assoma de forma subtil, porque de outra forma seria demasiado contundente no projecto de fotografia (imagem) e a paisagem surge de forma não tradicional – o olhar de Cláudio é conceptual e procura pistas, indícios e não a paisagem “tipo postal”. A vontade de reflectir simultaneamente sobre a experiência do lugar e o próprio processo arquitectónico do Museu do Côa explica a não linearidade temporal da série com imagens de arquivo (imagem) anteriores e outras posteriores ao projecto de arquitectura. Outras estratégias artísticas interessantes são a ideia de colecção vinda de Walter Benjamin (1969) (5) que Cláudio explora para o projecto fotográfico do Côa como se estivesse a construir uma enciclopédia mágica de indícios e artefactos daquele território, bem como a hipótese que coloca de utilizar, como suporte final do projecto em livro, uma caixa com o conjunto de imagens segundo a ordem do autor, mas que depois permitiria ao público criar novas ordens. Esta última ideia que muito ligada ao conceito de obra aberta de Umberto Eco (2005) (6).

Cláudio está consciente de que o olhar do fotografo pode ser uma mais valia para o arquitecto na medida em que lhe permite questionar e compreender a realidade do território de uma forma poderosa e singular. No entanto, também nos avisa que o olhar do fotografo é um olhar distinto do arquitecto porque tem um processo e mecânica próprio que escapa ao da arquitectura. É assim significativo notar como as imagens fotográficas de Cláudio têm o poder de nos revelar não só a lógica espacial e a beleza exterior daquele lugar, como também a qualidade poética de Foz Côa, o seu geniu loci. Por outro lado, é a arquitectura que tem o potencial para traduzir em espaço e forma essas qualidades e , neste caso do Museu do Côa, ele é uma expressão poderosa daquele lugar território, quase que como a ele estivesse ligado de forma animal e intemporal.

Somo assim confrontados com um projecto fotográfico complexo que tem como estratégia trazer alguma luz sobre o próprio processo de concepção de arquitectura e que, sendo autónomo, também combina em si momentos do processo de concepção do projecto fotográfico com o de arquitectura. Cláudio oferece-nos algumas pistas para percebermos o processo criativo dos arquitectos e fala, primeiro, de como o processo criativo de Camilo Rebelo e Tiago Pimentel é uma aventura intelectual muito rica e heterogénea na medida em que corresponde a uma síntese formal que tem como base uma diversidade de referências: a experiência do lugar, memórias pessoais, imagens de fotografia, livros, poemas, textos de autores diversos, arquitecturas, eventos culturais, obras de arte e muitas outras mais. Explica, em seguida, que também o seu projecto “Côa” combina imagens de diversos artefactos relacionados com aquele território e o processo de concepção do Museu e, na série que apresentou, integra uma imagem fotográfica de arquivo de Camilo Rebelo que, na sua óptica, sintetiza de forma brilhante a forma como estes arquitectos entenderam e trabalharam a paisagem: como um erosão de terra natural, onde o natural e o artificial se entrelaçam e uma forma simples, como a do Museu, assume uma grande complexidade.

Muitos mais conceitos e outras questões relacionadas com a temática da conferência poderiam ser aqui abordadas, e a intervenção posterior de Carlos Lobo e o debate final foi um espaço de intercambio de ideias muito rico de que aqui apenas faço uma rápida exposição.

Ainda sobre a série apresentada, é interessante referir como Cláudio explica que são as próprias características plásticas e de escala das imagens que criam diferentes hierarquias e ritmos na narrativa, explicando assim como o tamanho mais reduzido de certas imagens na série criam pausas subtis que funcionam como sub-capítulos visuais. Depois, percebemos que é o “modelo mental” do autor, como diria Stephen Shore (7), que o faz tomar decisões ao nível da representação (tomada de vista, luz, foco, etc.) que vão caracterizar formalmente o resultado final da imagem fotográfica, sendo esta interacção criativa entre mente, realidade e as decisões operativas que fazem da fotografia um  meio e processo artístico surpreendente capaz de (re)cortar e captar o tempo e a luz dos espaços, reinventando-os numa superfície que, como diria Susan Sontag (8), é ela própria uma fonte de conhecimento que nos ajuda a (re)definir a realidade, a recriar o lugar daquele território. Podemos detectar este processo criativo em Cláudio quando, por exemplo, ele explica que e sua escolha de tomada de vista (9) permitiu-lhe, de um mesmo local, decidir por dois enquadramentos distintos – duas imagens que recortam a paisagem para obter significados e características formais diferentes: por um lado, a fotografia que enquadra e centra a amendoeira em flor, realçando dessa forma as suas características formais e que nos surge como se o autor estivesse a construir uma série, ou a fazer um estudo tipológico sobre estes elementos naturais como os Becher realizaram sobre o vernáculo industrial Alemão ou Sander sobre o povo Alemão; por outro lado, do mesmo local, Cláudio com uma pequena mudança de tomada de vista cria um novo enquadramento da paisagem que, na sua procura de indícios significativos do lugar, nos mostra parte de uma caleira da estrada que rasga o território naquele sítio.

Por fim, falando um pouco da intervenção de Carlos Lobo, foi significativa a questão que, em determinada altura, foi colocada acerca da facilidade que hoje em dia existe em fazer fotografia e também da necessidade de existirem alguns critérios que nos orientem sobre a qualidade das mesmas (10). Foi referido como importante que o autor fosse capaz de comunicar visualmente e de forma consistente, através do seu projecto fotográfico, uma ideia, posição crítica ou sentimento, constituindo isso um dos possíveis factores de qualidade do trabalho.  Em determinada altura do debate, Carlos cita de cor um pensamento importante de Gary Winogrand “Photography is not about the thing photographed. It is about how that thing looks photographed.” e que chama a atenção para o facto de que o mais importante não é o objecto fotografado, mas sim como ele nos surge na fotografia. Esta última questão reporta-nos novamente para o processo de concepção fotográfico e os três níveis de fotografia referidos por Stephen Shore (11) - nível físico, nível da representação e nível mental – porque estes são capazes de desconstruir esse processo e ajudam a perceber a qualidade ou a falta de qualidade de certos projectos fotográficos.

Pedro Leão Neto.

1 http://www.effaup.cityscopio.com

2 Cláudio Reis (Vila do Conde, 1980) http://www.umclaudio.com

3 Carlos Lobo (Guimarães, 1974) http://www.carloslobo.net

4 “The powers of photography have in effect deplatonized our understanding oe reality, making it less and less plausible to reflect upon our experience according to the distinction between images and things, between copies and originals” in Sontag, S. (1997) On Photography. London, Penguin Books

5 Benjamin, Walter. “Unpacking my Library: A Talk about Book Collecting,” in Illuminations, translated by Harry Zohn, edited and with an introduction by Hannah Arendt (New York: Schocken Books, 1969), pp. 59-67.

6 Umberto Eco, Obra Aberta: forma e indeterminação nas poéticas contemporâneas. São Paulo, 2005

7 Shore, S 2007, The Nature of Photographs, Phaidon Press, New York.; Shore writes about perception using three levels: The Physical level, The Depictive Level and The Mental Level “You see a mental image – a mental construction – when you read this page, or look at a photograph, or see anything else in the world. Your focus even shifts when reading this picture by Paul Caponigro. But your eyes don’t actually refocus (since you are only looking at a flat page). It is your mind that changes focus within your mental image of the picture, with all the attendant sensations of refocusing your eyes. It is your mental focus that is shifting.

…Pictures exist on a mental level that may be coincident with the depictive level – what the picture is showing – but not mirror it. The mental level elaborates, refines, and embellishes our perceptions of the depictive level. The mental level of a photograph provides a framework for the mental image we construct of (and for) the picture.” (page 97)

8 Sontag, Susan, 1977, ON PHOTOGRAPHY, Penguin Books, London; Susan Sontag explains in The Image-World (pag 153 – 180) that photography is more about the acquisition of knowledge than the actual experience it portrays.

9 DUBOIS, Philippe (1986): El acto fotográfico. De la representación a la recepción. Barcelona: Paidós (1ª Edición: 1983);.o acto fotográfico implica “uma tomada de vista ou olhar na imagem”, um recorte da realidade: “… a imagem-acto fotográfico interrompe, detém, fixa, imobiliza, separa, despega a duração captando apenas um instante. Espacialmente, do mesmo modo, fracciona, elege, extrai, isola, capta, corta uma porção de extensão. A foto aparece assim, no sentido forte, como uma fatia única e singular de espaço-tempo, literalmente cortada em vivo” (p. 141).

10 Relativamente a esta questão ler a excelente entrevista / conversa “An Extended conversation with Francis Hodgson” em http://jmcolberg.com/weblog/2013/02/an_extended_conversation_with_francis_hodgson

11 Shore, S 2007, The Nature of Photographs, Phaidon Press, New York

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